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Tópico: A-Matilha

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    Padrão A-Matilha

    2017-A-Matilha-[Conto: Farrapo]



    Catando lixo por terrenos esquecidos.

    Dormindo em um carro meio quebrado, enferrujado, abandonado nas ruínas de um parque industrial falido.

    Relativamente alto-astral.

    Cata lixo bom em um parque de diversão.

    Cata lixo caro as margens de um plácido lago de uma reserva florestal.

    Ele vê um sombrio sol azul neon e nuvens púrpura refletidas na escura água misteriosa.

    De montão. Cata lixo de montão.

    No subúrbio uma família saiu para o shopping e nesta hora vazia, ele entrou e tomou um longo banho quente num chuveiro espumante.

    Deixou rabisco sem assinatura, num papel de pão expressando sua gratidão.

    Tem um fogareiro de querosene. Ferve água e mistura com um pouco de leite em pó vencido.

    Isto aquece o estômago e ele tenta lembrar se um dia foi um bebê recém-nascido.

    Ele já não sabe mais o que é autopiedade. Não possui mais esta fraqueza.

    Não sabe sobre as cores, não lembra de sabores, não se incomoda com a luz e não teme a escuridão. Infelizmente, libertou-se destas mentiras.

    Odeia, odeia o frio. O frio queima. O frio paralisa. O vendaval gelado mata.

    O inferno deve ser gelado.

    A polícia da cidade o conhece. Ele é inofensivo e eles tem pena dele.

    Ninguém quer estar em sua pele.

    As vezes é preso apenas para receber uma refeição e dormir em um colchão macio com cobertores no chão.

    Ele nem sempre foi assim.

    Houve um tempo que teve várias coisas.

    Viveu no mundo das pessoas. Era parte da sociedade. Soube onde era seu lugar.

    Mas um dos muitos lobos que existem no mundo, lhe tirou tudo.

    O mundo todo é dos lobos. Lobos assassinos. Muitos deles em pele de cordeiros. Existem também lobos vestidos de gente. Cães latem antes de atacar. Lobos atacam para matar, sem produzir ruído algum.

    Ele especialmente odiava hienas. Hienas risonhas e mentirosas, que atacam em bandos comendo carniça de outros predadores, fazendo sexo uma vez por ano.

    A coisa está feia.

    Ele sabia que a coisa estava feia. Como quem não quer nada, o pau come incessantemente. É cacetada, porrada, bordoada, facada, tiro, bomba e assassinatos pra todo o lado e em toda parte. Chacina. Extermínio. Extinção. Todo dia. 24 horas.

    O mundo é um moedor de carne. E o pior, é que muita gente acha que o moedor está trabalhando muito devagar e deve ser acelerado.

    Se você magro de comer pouco, vestisse roupas encontradas no lixo ou doadas por grupos comunitários e fedesse e se seus sapatos tivessem a sola gasta, com cabelos sujos, dentes com bastante tártaro seria socialmente invisível. E se deste jeitinho, encostasse na esquina de uma feira, centro comercial, festividade em qualquer cidade a apreciar o movimento, você ia ver o que acontece.

    Você ia ver como o mundo é. Você ia ver a violência em todas as suas formas. Você veria todo tipo de atrocidade, crimes de todos os tipos acontecendo simultaneamente a cada segundo até você ter vontade de escrever num papelão que o mundo vai acabar, pregar o papelão num cabo de vassoura e sair berrando pelas ruas.

    As vozes na tua cabeça talvez lhe oferecessem algum consolo inútil. Talvez elas se calassem.

    Mas ele era esperto e não queria ir parar em hospício, nem sanatório onde o mundo extermina tranqüilo, numa boa, gente que nem ele e a sociedade agradece e esquece.

    Ele não queria nada. Não sofria. E apesar de perdido, era um ser humano. A maior parte das pessoas, tem a esperteza instintiva de dar amor a animais que mereçam. Animais dóceis. Como por exemplo um lindo coelhinho ou um hamster.

    A maioria das pessoas de bem e de bom coração, levariam um filhote de gato vira-lata para casa, mas ninguém comete o erro de abrigar um mendigo.

    Ninguém é besta.

    Pessoas não são animais inocentes e inofensivos. Pessoas mudam de nomes, endereços, posturas, apelidos e mascaras, mas para ele era fácil reconhecer a maldade e ironia pois; a maldade e o veneno no coração da pessoa permanece imutável, ainda que possa adormecer latente.

    Um mendigo pode ter doenças. Ele pode ser insano. Pode cortar sua garganta enquanto você dorme, pode mesmo. Em contrapartida, um gatinho ou um cãozinho, nunca jamais fariam isto.

    Talvez todos os animais saibam amar, menos o ser humano e desta forma louca ele seguia catando, catando lixo pensando como uma garota perdida, se quem tem tudo pode quase tudo quem nada tem absolutamente tudo pode. E falava sozinho, sempre sozinho sobre a verdade da mentira, a mentira da verdade, o amor do desamor, a liberdade vigiada sem esquecer da prisão que é a liberdade e da liberdade advinda da prisão e o mal que o bem causa. Então…

    Vendendo lixo ele conseguiu fazer algumas economias.

    Conseguiu comprar gasolina, óleo de motor e uma bateria para o carro abandonado.

    Com uma bomba manual passou horas enchendo os pneus.

    E o veículo reviveu.

    Miraculosamente rodou, e ele rumou pra outra cidade.

    Longe de esquecidas saudades.

    Nesta outra cidade em uma zona de entretenimento, procurou por carros que tivessem as portas abertas demorou um bom tempo.

    Em um carro achou roupas grandes que com pequeno ajuste até que lhe caíram bem.

    Em outro carro achou um pouco de dinheiro uma arma de fogo carregada, com número de série rapado.

    É impressionante o que uma pessoa consegue achar e fazer quando não tem mais nada.

    Talvez, nem Deus.

    Um mendigo invisível sombrio fedido que vaga pela noite encolhendo-se. Diminuindo-se. Menos que um farrapo.

    Como não era capaz de suicídio, decidiu que não iria passar mais um inverno na rua. Não sobreviveria a mais um inverno nas ruas.

    As vezes sob o ruivo sol da manhã a mente dele divagava e alucinado ele via. Via, pelas ruas que estavam acordando quase desertas, vaquinhas cor-de-rosa voando sobre faixas de pedestres. Como era lindo ver os semáforos dançarem.

    Ele sonhava com pessoas que ele um dia amou, apesar de não lembrar dos nomes e muito menos de faces.

    E nestes descaminhos, ele acabou arrumando um emprego no verão. Pois tinha vontade, tempo e tinha o carro velho.

    O serviço era simples. Lhe fora oferecido quase como caridade. O serviço era cercar um pequena propriedade rural afastada várias léguas das terras civilizadas.

    Havia um galpão vazio de bom tamanho por lá. Serviria para estocar o que era produzido nas redondezas.

    Para chegar neste lugar, o caminho era um labirinto. Nas profundezas daquela imensidão nenhuma estrada de terra tem placa ou identificação.

    A pessoa só sabe para onde ir se iniciada por um veterano. Não funciona GPS.

    A pessoa só aprende o caminho depois de percorre-lo várias vezes. A planície é vasta e os pontos de referências são mínimos.

    Uma pedra sobre outra ali, um arbusto em forma de mão acolá.

    De tanto viver em espaços abertos, adaptar-se a aquele percurso não foi tão difícil quanto as pessoas pensaram que seria.

    O galpão era de cobertura arredondada, chapa metálica, madeira, parafusos, escadas. Um grande portão de entrada na frente para carga e descarga. Pequenas portas laterais para entrada e saída de pessoas. Janelas horizontais estreitas e nas alturas. No fundo do galpão havia um primeiro andar e se houvesse um gerente, coisa que não tinha; ele seria encontrado por lá. Na situação atual, escolheu estender seus trapos no primeiro andar, longe de bichinhos peçonhentos.

    Próximo da propriedade que ia cercar, havia uma floresta cheia de eucaliptos eqüidistantes.

    Floresta replantada para substituir a que foi um dia devastada.

    Uma floresta artificial, para uma terra revivida quimicamente que germinará vegetais com DNA alterado que será regado com a água mais pura da terra e será pulverizado com os venenos mais nocivos criados pelo homem.

    Ia trabalhar por quinze dias nas na primeira noite lá, ouviu o uivo de uma matilha.

    Teve um mal pressentimento. Tudo parecia nada bom.

    O dia amanheceu. Fez uma fogueira em frente ao galpão sob o sol matinal que aqueceu seu corpo e ele aqueceu a água. Na lata de água jogou um pouco de café em pó. Fritou ovo, fritou pão, fritou cebolas e comeu e bebeu café forte e amargo. Foi abrir manualmente buracos na terra e fincar postes de concreto fundo no chão.

    E neste dia tão especial, ele sentiu-se praticamente feliz.

    A atividade física lhe fazia bem.

    Gostou de sentir o suor escorrendo pelo seu rosto e pelo corpo inteiro. Vestia apenas cinto, ásperas calças reforçadas de lona, botas negras surradas com bico de aço e velhas luvas de couro.

    Estava magro. Bem magro. Mas sobre seus ossos haviam feixes de músculos. Seu corpo era todo definido. Ele era rápido magro, flexível e forte fisicamente.

    Difícil de acreditar. Mas verdade. Não que isto o tornasse bonito e ele não dava a mínima para nada disto.

    Foi então depois de dois dias, que ele escutou mais uivos e latidos. Pareciam mais próximos. Podia apenas ser o som viajando no vento.

    Naquela terra há muito estavam extintos os lobos. Então eram cães pensou ele. Cães em grupo para ele assemelhavam-se a pessoas reunidas em linchamentos. Em favelas, raves, rodeios e estacionamentos de sua vida, havia visto vários linchamentos.

    Ele mesmo fora linchado uma ou duas vezes apenas por ser ruim da cabeça. Por ser um tolo mendigo fodido, que estava no lugar certo na hora certa para que um grupo de homens e mulheres, jovens e crianças desejosos de ferir alguém pudessem descarregar o ódio e a dor de viver em seu corpo.

    Mas como nada é totalmente ruim, com estas experiências ele adquiriu uma espécie de sexto sentido, ou talvez, seu instinto de sobrevivência apenas ficou mais afiado.

    Tinha uma cambada por ali e esta corja, não era de brincadeira.

    Correu para o galpão e voltou com a arma de fogo enfiada no cinto da calça e continuou seu trabalho, imaginando que quando o inverno chegasse, ele estaria pela primeira vez em anos num lugar quentinho com latas de comida empilhadas. E mais. Um rádio, uma cama, cobertores, um banheiro só dele, uma cadeira e uma mesa com caneta, lápis e um grosso caderno em branco que, ele esperava encher de palavras despreocupadas que não precisariam fazer sentido algum.



    Teria paz. Seria um inverno bom.



    .


    “A leitura torna o homem completo; a conversação torna-o ágil; e o escrever dá-lhe precisão.”
    (*¥*)
    - Francis Bacon


  2. O seguinte usuário agradeceu à gu1le por esse post:

    lureinhardt (15-06-2017)

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