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Tópico: Rascunho sem título - para avaliar

  1. #1
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    Padrão Rascunho sem título - para avaliar

    O que vocês acham? Não vou dar detalhes por causa do spoiler, apenas uma opinião quem tiver interesse em ler é claro.

    Meu pé pisando as folhas secas e os galhos dos pés de eucalipto soou como um tiro na noite escura e silenciosa daquela quarta-feira dia 20 de junho. Corri com a lanterna toda a extensão que a luz alcançava e girei sobre os calcanhares dando uma volta em trezentos e sessenta graus mas tudo que vi foi mato, folhas secas e troncos alinhados de eucalipto. Estava frio no meio do bosque e as linhas retas de árvores praticamente do mesmo tamanho pareciam correr indefinidamente na escuridão quebrada apenas pela tênue luz da lanterna. Por via das dúvidas eu tinha um par extra de pilhas no bolso da calça. Ergui a lanterna e olhei para cima mas não pude ver bem a lua minguante através das copas dos eucaliptos. Me perguntei novamente o que estava fazendo ali àquela hora da noite. É claro que quando a senhora Mattos bateu na minha porta no finalzinho da tarde dizendo que sua filha Raquel não tinha voltado para casa desde o dia anterior eu me dispus a ajudar, às vezes tenho esses momentos de generosidade. Durante todo o caminho tentei ajudar perguntando se eles haviam procurado nos lugares que ela costumava ir, casa das amigas, se haviam ido ao hospital da outra cidade esse tipo de coisa que se vê na televisão, a resposta sempre foi positiva. Então lá estava eu no bosque de eucaliptos da uma grande propriedade rural. O dono da fazenda, seu Jorge, muito gentilmente cedeu seus funcionários para ajudar a procurar pelo lugar. E eu fui parar na plantação de eucaliptos.
    - Alguma coisa? Virei e iluminei o rosto de um cara que piscou e pôs a mão na frente se protegendo do facho, baixei a lanterna e apontei para seus pés.
    - Folhas e mato, nada da Raquel. O homem também girou o facho da lanterna.
    - Devíamos parar, não vamos muito longe no escuro. Eu tinha que concordar com ele, as copas eram fechadas e não deixavam entrar muita luz, e as lanternas não iluminavam muito longe, tropeçaríamos no corpo de Raquel antes de vê-la... Olha só, já estava pensando que ela estava morta tão acostumado que sou com a violência das grandes cidades brasileiras.
    Eu nem me apresentei, me chamo Jonathan Oliveira, tenho vinte e cinco anos quase vinte e seis e me mudei para Rio Claro há uns seis meses. Perdi meu emprego em São Paulo por causa de um acidente e não consegui me recuperar então tive que fugir da cidade por assim dizer e voltar para Rio Claro no interior onde minha família tem uma casa. Passei os primeiros meses limpando e concertando os estragos, demorou mais pela falta de dinheiro do que pelo estado de conservação mas agora o lugar já está habitável, pelo menos não preciso me preocupar com o aluguel. Me viro com as contas fazendo alguns bicos em oficinas e nas fazendas ao redor de cidadezinha, também dou aulas particulares de inglês e tenho uma boa turma entre os filhos dos fazendeiros e moradores locais. Raquel era uma das minhas alunas, uma adolescente cheia de energia e muito inteligente, por causa das aulas nós conversávamos bastante, ela me perguntou por que eu voltei e eu perguntei por que ela queria ir embora. Não sei se foi o fato de nos tornamos amigos ou o dinheiro que eu ia perder que me motivou a participar do, entre aspas, grupo de busca. Egoísta eu sei, me processe. A verdade era que eu não tinha esperanças de encontrar Raquel, não viva pelo menos. Não seria o primeiro caso de uma menina bonita que desaparece sem deixar rastros e é encontrada dias depois morta em algum matagal, ligue a televisão ou abra o jornal e comece a contar os corpos, vai se sentir enjoado.
    Continuamos a andar mais um pouco em silêncio, meu companheiro gritou o nome de Raquel mas apenas o eco de sua própria voz e o silêncio gelado dos eucaliptos voltou em resposta. Olhei para o homem e fiz sinal com a lanterna para mudarmos de faixa, ele me seguiu e andamos praticamente lado a lado até eu parar e gritar o nome dela, não esperava resposta mas tinha que fazer alguma coisa ou ia ficar depressivo.
    O desaparecimento de Raquel não tinha sido a primeira ocorrência estranha em Rio Claro. Soube disso por que fiz uns bicos na clínica médica local. Chamavam de clínica por que Rio Claro não tinha estrutura para manter um hospital mas o lugar era equipado demais para ser chamado de posto de saúde, além disso contavam com um médico de plantão vinte e quatro horas por incrível que pareça. Eu fazia a faxina do lugar quando o faxineiro diarista não podia e ás vezes dava uma de enfermeiro em casos urgentes como na vez em que um menino pouco mais alto que meu joelho caiu de uma árvore e quebrou o braço, o doutor Marcelo me pediu para ajudar com o gesso. Perguntei se ele não ia tirar um raio-X e ele me disse que o único aparelho estava em Santa Clara, a cidade vizinha e quebrado, não foi uma completa surpresa. Por isso Marcelo mexeu no braço quebrado e engessou da melhor maneira possível dentro das circunstâncias. A enfermeira não tinha chegado ainda e eu era o substituto mais rápido. O menino chorou e esperneou do início ao fim, não que eu pudesse culpá-lo, tinha quebrado uma perna no acidente e isso doeu pra caramba. Mas não é desse acontecimento que estou me referindo, o que aconteceu foi que quatro pessoas com mais de sessenta anos haviam morrido de repente em suas casas semanas antes. Marcelo e a polícia foram chamados para olhar os corpos. A primeira morte foi de uma senhora de sessenta e seis anos, ela estava na cama se recuperando de uma anemia mas parece não ter resistido a doença, ninguém achou estranho já que Maria, a senhora de sessenta e seis anos tinha uma saúde frágil desde mais nova. O corpo estava muito branco em decorrência da anemia e rígido devido a morte, a hora foi estabelecida entre as nove e dez da noite anterior, a hora em que o filho dela havia deixando a mãe dormindo no quarto. Nada estranho até que no dia seguinte duas pessoas idosas foram encontradas mortas em sua cama. Era um casal de idosos que moravam sozinhos, os vizinhos não os viram por dois dias seguidos e só então alguém foi verificar. O homem e a mulher já estavam mortos a pelo menos um dia, brancos como farinha. Os corpos foram mandados para Santa Clara e o laudo do legista retornou como morte em decorrência de parada cardíaca. Duas pessoas morrendo do coração ao mesmo tempo era estranho, ainda mais duas pessoas sem histórico de problemas cardíacos. A quarta vítima foi um homem, segundo a família ele havia retornado a noite muito pálido e cansado, foi dormir sem jantar e pela manhã a filha o encontrou morto. A causa da morte nunca foi esclarecida mas os exames mostraram que ele estava anêmico, a família negou conhecimento da doença. Menos de uma semana depois da descoberta do último corpo Raquel desapareceu e um dia depois lá estava o grupo de busca.
    - Vocês dois conversavam bastante não é? Me virei para meu parceiro de busca e o encarei.
    - Dava aulas de inglês para Raquel todas as sextas-feiras. Falei de forma automática sem entender aonde o homem queria chegar.
    - Então eram próximos?
    - Não muito próximos. Aonde você quer chegar? Acha que eu tenho alguma coisa a ver com o sumiço dela? O homem pareceu ofendido.
    - Não quis dizer isso.
    - Não? Sabe o que acontece com as pessoas que chegam muito próximas de descobrir um assassino? Apontei a lanterna para meu queixo e encarei o homem sério, ele riu um pouco nervosamente, eu sorri em resposta e movi o facho para o chão. Um galho estalou atrás de nós e nos viramos ao mesmo tempo percorrendo a extensão da luz das lanternas com os olhos. Apurei os ouvidos mas não consegui escutar nada, nem o vento nas folhas de eucalipto já que não havia vento nenhum.
    - Será alguém do grupo de busca? Perguntou meu companheiro.
    - Se fosse do grupo ele teria uma lanterna não?
    - Tem razão, talvez um animal?
    - Pode ser, está armado?
    - É claro que não.
    - Vamos por aqui, olhos e ouvidos abertos. A primeira coisa que me veio a cabeça quando começamos a andar foi que a pessoa que raptou Raquel, se é que houve mesmo um rapto, estava na plantação de eucaliptos e sabia que estávamos ali procurando a menina, meu companheiro deveria estar pensando a mesma coisa pois andava devagar olhando para todos os lados. Estávamos em dois mas o bandido podia estar armado e esperando de tocaia atrás de um pé de eucalipto, andamos lentamente girando as lanternas mas a paisagem continuava cheia de mato e árvores, nenhum som ou vislumbre de movimento. Caminhamos por cerca de cem metros até chegarmos a uma depressão no terreno, iluminando o fundo foi que vimos alguém deitado de costas no chão. Iluminei o rosto de Raquel, tinha mais ou menos quinze anos, pele clara e cabelos castanhos cacheados. O nariz era pequeno e fino e os lábios também finos, covinhas se formavam nas bochechas quando ela sorria mas nesse momento não parecia em condições de sorrir. Havia uma mancha marrom de terra na bochecha e ela usava o uniforme do colégio que eu já a vi usando muitas vezes. Chequei rapidamente suas roupas mas tudo parecia no lugar, amarrotada e suja mas sem sinais de rasgos. Desci rapidamente no buraco e me ajoelhei ao lado da menina, coloquei dois dedos sobre o pescoço procurando a veia para sentir o pulso, estava fraco mas estava ali. Me virei e iluminei meu companheiro de busca.
    - Está viva, corre lá chamar o pessoal.
    - Certo, aguenta aí. Ele se virou e correu escuridão adentro, logo perdi o rastro do facho da lanterna e me voltei para Raquel sentando do seu lado. Corri a luz agora mais perto procurando machucados ou sinais de qualquer forma de abuso. De olho não vi nada preocupante além de algumas marcas roxas talvez devido à queda no buraco. Sabia que não deveria mexer nela por que poderia ter alguma fratura interna, acariciei sua testa sentindo a pele fria como de um cadáver mais seu peito subia e descia regular, devia significar que ela não corria perigo imediato.
    - Aguente firme garota, logo você vai estar em casa levando bronca por quase ter matado seus pais de susto. Outro galho estalou acima de onde nós estávamos e eu ergui a lanterna iluminando a bordas da vala, prendi a respiração e apurei os ouvidos mas a única coisa que ouvi foi o sangue circulando nas minhas têmporas. Com o mão tateei o chão a procura de um pedaço de pau ou uma pedra até meus dedos tocarem na superfície fria de uma pedra do tamanho da minha mão e a agarrei com força correndo a lanterna para cima.
    - Quem está aí? Minha voz saiu mais corajosa do que eu realmente me sentia. É curioso como barulhos no escuro conseguem te deixar nervoso não importando a idade que você tenha, principalmente quando você está no escuro bem no meio de lugar nenhum estilo filme de suspense. Fiquei de pé tentando fazer o menor ruído possível e tentando escutar alguma coisa mas o ar entrando e saindo dos meus pulmões era o som mais alto naquela parte da plantação de eucaliptos. Experimentei dar alguns passos tímidos ouvindo meus pés esmagar folhas secas e parei atento, não demorou muito e ouvi finalmente o som de folhas esmagadas. Respirei fundo e corri barranco acima com a pedra na mão, varri as fileiras de árvores com a lanterna, girei sobre os calcanhares e vasculhei atrás de mim mas não vi nada. Meu coração bombeava sangue acelerado e eu respirava mais pesado devido ao esforço da subida, ou a vala era mais funda do que tinha imaginado ou estava com mais medo do que queria admitir. Girei a cabeça atento aos ruídos, atrás de mim luzes se acenderam e passos chegaram acelerados. O restante do grupo de busca finalmente estava no local. O primeiro que chegou foi o doutor Marcelo, era um homem na casa dos quarenta com manchas grisalhas nas têmporas mas mantinha o corpo em forma a custa de muito exercício. Usava botas e uma jaqueta de couro surrada sobre calças jeans ainda mais surradas. Ao lado dele o delegado de polícia usando um conjunto de calça jeans e jaqueta de malha com capuz, informal demais para um delegado mas pelo menos estava armado o que já me deixava mais tranquilo. Apontei a lanterna para a vala e eles seguiram o facho com os olhos, Marcelo foi o mais rápido a descer. O delegado se aproximou de mim.
    - Geraldo nos trouxe até aqui, está tudo bem?
    - Tudo, mas pensei que tinha mais alguém rondando por aqui. Ergui minha mão que ainda segurava a pedra e a joguei de lado limpando a sujeira na calça. O delegado vasculhou as árvores com sua lanterna mais potente que a minha.
    - Se tinha alguém acho que nós assustamos. Conseguiu ver alguma coisa? Um vulto? Neguei com a cabeça.
    - Só escutei passos nas folhas eu acho. Estava lá embaixo com Raquel e quando subi não vi ninguém. O delegado concordou com a cabeça e se voltou para a vala.
    - Vou precisar tomar seu depoimento e do Geraldo assim que Raquel estiver medicada tudo bem?
    - Vou precisar de um advogado?
    - Como ela está doutor? Gritou o delegado fazendo Marcelo olhar para cima e estreitar os olhos por causa da luz das lanternas que apontavam para baixo.
    - Ela está muito fraca mas não tem sinais de fraturas, acho que é seguro removê-la.
    - Levamos ela para a clínica?
    - Melhor levarmos para Santa Clara, o hospital tem mais condições de fazer exames detalhados e ela vai precisar ficar em observação.
    - Meu carro está fora dos eucaliptos, podemos levar ela nele?
    - É mais rápido do que pedir uma ambulância, estou subindo com ela. Marcelo passou os braços por baixo do corpo de Raquel e a levantou como se a garota não pesasse nada, viva a vida saudável. Me afastei da beira da vala já que Raquel estava em boas mãos e segui um pouco em frente varrendo o chão com a lanterna, procurava marcas de sapato ou pegadas de algum animal, qualquer coisa que me dissesse que eu tinha realmente ouvido alguém por perto antes da chegada do doutor Marcelo e do delegado. Parei e me ajoelhei tentando me convencer de que meus olhos estavam vendo bem, corri o dedo por uma marca de um pé descalço na terra. No centro havia pó de folha seca de eucalipto esmagada, tinha mesmo alguém ali e estava descalço. Ergui a lanterna mantendo ela na minha frente e girei devagar.
    - O que foi? O delegado se acocorou do meu lado e eu iluminei a pegada.
    - Acho que Raquel não chegou aqui sozinha. O delegado estudou a pegada e depois repetiu meu gesto com a potente lanterna.
    - Amanhã eu volto aqui e dou mais uma olhada, com a luz do dia vai dar para investigar melhor. Murmurei uma resposta e me levantei seguindo o delegado e me juntando ao grupo que deixava a plantação de eucaliptos. A única coisa que não consegui esquecer foi a sensação de estar sendo vigiado.
    Foi um dia depois da busca no bosque de eucaliptos que recebi a ligação do doutor Marcelo informando que Raquel havia morrido, perguntei a ele como isso aconteceu e ele não soube me responder com certeza. Disse que Raquel apresentava um quadro grave de anemia e faleceu por cauda de uma parada cardiorrespiratória. Ele não teve acesso ao laudo da autópsia que estava com o delegado. Depois de desligar me sentei no sofá da sala com uma xícara de café e revivi mentalmente as conversas que tive com a garota. Ela havia me contado sobre a irmã mais velha que havia ido para São Paulo onde tinha conseguido emprego fazendo o caminho inverso que eu havia feito algum tempo depois dela sair de Rio Claro. Raquel tinha planos de ir também quando terminasse os estudos, me contava toda empolgada sobre o apartamento da irmã. Tomei mais um gole do café pensando sobre a morte dela, era a segunda ou terceira pessoa que tinha anemia na cidade antes de morrer. Anemia até onde sabia não era contagiosa, mas alguma outra coisa podia estar causando a doença.
    Não cheguei a ir no velório na casa dos Mattos por que achei que a última coisa que eles precisavam agora era mais alguém lamentando a perda e trocando abraços de consolo. Também não participei dos serviços fúnebres na igrejinha por que... muito bem, chega de desculpas. Quando os homens carregaram o caixão de Raquel para fora da igreja até o cemitério na parte de trás eu segui de longe. Coloquei as mãos nos bolsos da jaqueta de napa preta e circulei os túmulos mantendo uma distância respeitosa, não era tão íntimo da família assim. O doutor Marcelo estava entre os integrantes do grupo de enterro e me viu parado ao lado de um túmulo. A expressão do médico era conformada o que me fez pensar em quantas pessoas ele já viu morrer em um hospital da mesma forma que Raquel. Minha expressão devia mostrar algo parecido já ele mexeu a cabeça em um cumprimento e voltou a encarar concentrado o túmulo recém-aberto de Raquel. Quando o pessoal da funerária começou a fechar o túmulo e as pessoas começaram a se despedir e abraçar os pais da menina saindo de fininho do cemitério aliviados por ser Raquel e não os filhos deles no caixão eu respirei fundo e me virei para refazer o caminho que tinha feito para chegar ali, o doutor Marcelo veio por trás de mim.
    - Não vi você no velório. Concordei com a cabeça sem olhar para o médico.
    - Não curto velórios, toda aquela gente chorando e se abraçando me dá agonia. Marcelo riu baixinho.
    - Não gosta de contato não é? Encolhi os ombros, não tinha sido criado a base de abraços e beijos mas tão pouco tinha do que reclamar, meus pais foram ótimos.
    - Uma pena que a irmã de Raquel não conseguiu chegar a tempo para o enterro. Comentou Marcelo, olhei de lado para ele.
    - Isso é algo com o qual ela vai ter que aprender a conviver. Sabe algo sobre o laudo da autópsia? O médico negou com um movimento leve de cabeça.
    - Não, mas acho que sei o que pode ter causado a morte.
    - Por acaso é anemia?
    - Mais ou menos, acho que foi um choque hemorrágico devido a taquicardia e a pressão baixa que ela apresentava ao chegar em Santa Clara, sem sangue o suficiente para bombear o coração falhou. Foi isso o que matou aquele casal de idosos algumas semanas atrás.
    - Não lembro de ter ouvido falar que acharam sangue no quarto dos velhinhos.
    - O sangramento pode ter sido interno, uma lesão nos intestinos ou outro órgão. Falou Marcelo didaticamente. Ele deve ter visto minha expressão de incredulidade por que voltou a falar.
    - Eu sei, qual a possibilidade de duas pessoas morrerem por causa de uma hemorragia interna ao mesmo tempo?
    - Acha que foi isso que matou Raquel? Marcelo encolheu os ombros.
    - É só um palpite. Achei duas marcas no braço dela, pareciam duas picadas de inseto.
    - Ela estava no mato e no mato tem insetos então o que isso tem de estranho?
    - Nada – falou ele – mas se o que está causando essas hemorragias é uma doença uma picada de inseto pode explicar muita coisa.
    - Tipo dengue hemorrágica? Marcelo concordou com a cabeça.
    - Bem pensado, não foram feitos exames para dengue nos corpos e como ninguém procurou a clínica ou o hospital de Santa Clara com sintomas não pensei nisso.
    - Não sabia que dengue podia matar tão rápido.
    - A variante hemorrágica pode matar em vinte e quatro horas em casos graves, mas no início apresenta os sintomas de uma dengue do tipo mais comum...
    - E ninguém procurou o hospital com esses sintomas. Terminei cortando a fala de Marcelo, ele concordou com a cabeça e mexeu nos cabelos.
    - Isso vai acabar virando um daqueles thrillers médicos.
    - Não seria melhor avisar alguém sobre isso?
    - Vou falar com a secretaria da saúde, melhor deixar eles em alerta para uma possível epidemia. Marcelo deu dois tapinhas em meu ombro e acelerou os passos saindo rapidamente do cemitério, tomei a direção oposta e fui para o centro de Rio Claro.
    Centro é um modo de falar já a cidade era composta de uma rua única de mão dupla onde o carro mais caro a passar era um Ford Fiesta que pertencia ao dono do único supermercado do lugar. Além de um supermercado, como eu já disse, havia uma lojinha de roupas, um cabeleireiro, uma casa agropecuária que pertencia ao mesmo dono do supermercado, quem diria, e uma agência do banco do Brasil. O restante eram casas das mais variadas, de material ou mistas de madeira e tijolos pintadas de branco ou amarelo, a maioria parecia já ter visto dias melhores. No final da rua havia um bar que era o ponto de encontro dos moradores e dos peões das fazendas nas noites de sábado e que eu nunca havia me aventurado em conhecer. Ao longo da rua principal outras ruas pequenas e calçadas com paralelepípedos serpenteavam para lugar algum cercadas por casas e outros estabelecimentos comerciais de todos os tipos. O quase perfeito cenário de uma novela de época, onde a vida era regulada pelo crescimento do capim e o ruminar monótono dos rebanhos bovinos. Passava das quatro da tarde quando entrei no famoso supermercado e passei pelo caixa, tinha uma lista mental do precisava e pouco dinheiro no bolso. Peguei um cesta e girei pelos corredores juntando minhas compras sempre procurando os preços mais baixos que eram poucos devido a inexistência de concorrência no ramo de supermercados de Rio Claro e depois de vários minutos tinha ajuntado quase tudo o que precisava. Passei em frente em uma prateleira com barras de chocolate e me lembrei das vezes que Raquel trazia uma barra para as aulas onde nós dividíamos e não pude deixar de sorrir, agarrei uma barra e ergui os olhos para cima.
    - Seu favorito. Ergui a barra como uma oferenda e colocando na cesta me dirigi ao caixa. A garota que trabalhava no caixa era baixa e gordinha mas muito bonita e sempre estava sorrindo não importava o dia em que eu a visse. Seu cabelo preto estava cortado na altura do ombro e uma franja rebelde caia por cima do rosto. Ela sorriu ao me ver.
    - Boa tarde.
    - Boa tarde. Enquanto ela passava as compras na máquina e ela apitava ao ler os códigos de barra eu tirei minha carteira do bolso.
    - Foi hoje o enterro não foi.
    - Foi sim, estou vindo de lá.
    - Como foi? Tirei uma nota de vinte e coloquei sobre o balcão.
    - Uma choradeira só.
    - Imagino, eu ouvi que você e o seu Geraldo quem a acharam. Isso é o ruim em cidades pequenas, as notícias correm.
    - Foi. Peguei as sacolas com uma mão enquanto pegava o troco com a outra e enfiava no bolso, a mocinha do caixa deve ter notado que eu não estava a fim de conversar por isso não perguntou mais nada, me despedi dela com um aceno de cabeça e saí do supermercado topando com duas senhoras com conversavam em voz baixa, elas pararam de falar e me espiaram pelo canto do olho. Balancei a cabeça e segui meu caminho para casa, aparentemente era o suspeito numero um da morte de Raquel nas apostas dos populares. Isso me lembrou um pouco um livro policial que eu havia lido, sempre desconfie da testemunha dizia o herói do livro, era um detetive introspectivo, mal humorado e calculista.

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    hunter (28-11-2017), michelchad (29-11-2017), Santine Kimo (08-12-2017)

  3. #2
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    Nossa muito legal tem mais.....Muito bom mesmo adorei.......
    A vida e cheia de escolhas! Então qual será a sua escolha?????

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    michelchad (29-11-2017), Santine Kimo (08-12-2017)

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