• Boa noite Coração



    São 23:19, estou dentro do meu carro atrás de um barzinho. Um barzinho qualquer, quanto mais sujo melhor. Estou somente com a bermuda de casa, a carteira e o celular pra qualquer problema em casa. Passo por uma menina de 15 anos da minha rua. Ela está indo pra rua namorar alguém ou “alguéns”. Ela acena fortemente pra mim, esperando que eu a cumprimente com a mesma alegria. Levanto a mão e sorrio educadamente sem mostrar os dentes. Jovem, muito jovem pra mim.

    Mais alguns metros à frente paro num bar de esquina. Dois amigos conversam com a dona, um deles magricelo apoiado num pé só e ou outro com uma pochete pesada na cintura. Não conheço o bar, penso em mudar de direção quando os dois me encaram, mas já tinha desci do carro, estou no meio da rua mexendo na carteira, não há mais volta. Chego até o bar e observo uma mulher negra, de uns 40 e poucos anos. Ao me ver ela esvazia o copo de cerveja e rebolar ao funk que toca no rádio. Observo suas curvas gastas da idade, seu cigarro servindo de sensualidade com seu batom vermelho sangue. Ela me olha me pedindo para desejá-la. Meu beiço permanece caído, não desejo, mas repulsa ao rebolar para o primeiro que aparece. Olho dentro da carteira e observo que só tenho uma nota de cinqüenta. Oras, só quero duas latinhas, pela cara da dona, não vai haver troco. Maldito câmbio. Volto pro carro e ela ainda me segue, esperando que eu abra a outra porta. O olhar de desejo se transforma em esnobação e num rebolar mais ousado quando eu saio dali. Oferecida, muito oferecida pra mim.

    Passo em outro bar, tocando um forró bem alto. A esquina lotada, fico animado ao ver tantas mulheres dançando desinibidas, apenas por dançar. Bebendo e se divertindo. Amigos conversando, rindo de qualquer coisa e mulheres dançando. Amigos e peitos e bundas dançando. Enquanto estaciono, toca um rock no rádio, “I can´t get no” dos bons Rolling Stones. Onde eu estava com a cabeça de parar num bar tocando forró ? Eu não sou forró, eu sou Rock ! Quando deixei de ser eu mesmo ? Volto pra casa, envergonhado de ter mentido pra mim, de procurar beber pra ficar solto, de desejar corpos e não mulheres.

    Entro no quarto e ela está lá. Com sono ela me olha, um olhar intrigado me pergunta o que faço fora da cama. Sorrio como quem sorri pra uma criança. “Desculpe amor, estava com dor de cabeça e fui comprar um remédio.” Ela nem desconfia que nosso casamento foi salvo pelo problema cambial de notas de 50 e por uma banda inglesa. Mal me ajeito ela procura meu peito pra deitar. Levanta a cabeça e pergunta, “Tá tudo bem?”
    - “É só emoção de estar com você.”
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