• Eu e a Isaura


    Um dos meus relacionamentos mais antigos e conturbados não é, acreditem-me, com um homem. E antes que imaginem que tenho tendências que não me são próprias, eu explico: esse relacionamento também não é com uma mulher, assim de carne e osso. Meu caso, rolo, borogodó, carma, ou coisa que o valha é a Isaura - entidade faxineira, invisível, pensante, falante, controladora e palpiteira até o último fiapo do avental com estampa de joaninhas.

    Nossa história começou muito cedo, ainda em tenra infância, quando uma vez a Isaura acabou por me convencer que minhas gavetas estavam o próprio Hades. Lembro-me de ter tirado tudo lá de dentro, pego um pano pra limpar as gavetas e, enquanto recitava o cordão de lamúrias da Isaura, ter ajeitado tudo no lugar novamente. Recordo-me que no começo até gostei da arrumação toda, mas no final das contas minha revolta chegou.

    - Ah, Tia Isaura (na época eu não tinha coragem de enfrentar a Isaura), será que não dá pra colocar as roupas de volta sem dobrar?
    - Claro que não, docinho (na época, ela era mais gentil comigo). Agora seja uma boa menina e dobre as roupas antes de guardá-las.

    E eu obedecia, como sempre.

    Acontece que o tempo passou e tornei-me uma adolescente rebelde, disposta a enfrentar a Isaura ao menor sinal dos seus pitacos. Não gostava de lavar louça, nem de limpar a casa. Detestava lavar os banheiros e a garagem, lavar e passar roupa, tirar a poeira dos móveis e lustrá-los. E se as mudanças aconteceram comigo, bem, não seria diferente com a Isaura. Ela se tornou ainda mais exigente, rabugenta e insistente. Acredito, inclusive, que ela precisa de terapia e de uma boa dose de antidepressivos. Não é normal, uma entidade ser chata daquele tanto!

    -Tá bom, Isaura. Já te vi aí no canto da sala e já sei que a louça está na pia. Agora, será que dá pra parar de bater o pé no chão? Está passando o clipe novo do Aerosmith na MTV e eu gostaria muito de ouvir.
    -Como eu detesto adolescentes! - respondia a mal-humorada Isaura - Estou doida pra você acabar de crescer logo. Quem sabe assim posso me aposentar e ir curtir meu status de entidade aposentada em algum lugar branco e asséptico. Olha aí, o clipe acabou. Agora, será que dá pra acabar logo com as poucas tarefas que você tem? Ah! Não se esqueça do montinho de sal que está caído no canto do balcão. Os cantos são muito importantes, ok?

    Eu bufava e ia para a cozinha ou para o canto da casa que me estivesse destinado para limpar, esfregar ou o que quer que fosse.

    - Já te contei que esse seu avental de joaninha é completamente cafona? - eu alfinetava.
    - Ja te contei que cafona é uma palavra completamente desatualizada para uma adolescente?
    Filha da puta da língua afiada, pensava eu, enquanto pegava o material de limpeza.

    E assim nossa história foi se desenrolando, cheia de embates e conflitos, mas com seus momentos de trégua. Alguns dias são bons, especialmente quando eu acordo descansada e de bom humor.

    - Bom dia, Isaura querida. Linda oportunidade para um tapa na casa, não?
    - Tapa? Que isso, menina! Hoje nós vamos ar-ra-sar. (A Isaura adora quando eu estou de bom humor). Liga aí uma música bem alta, enche esse apartamento de água e vamos esfregar tudo, que é pra ficar bem limpinho. A propósito, te disse que seu cabelo está ótimo hoje? (Ela sabe o jeito de me ganhar, danada)
    - Obrigada, Isaura.

    E nesses dias a gente se entende. Esfregamos tudo juntas, limpamos, lustramos, jogamos sacos e sacos de coisas fora. A única coisa que ainda não consegui ensinar pra ela é que quanto mais espuma no chão, mais difícil é o enxágue.

    Desconfio que ela já tenha entendido, mas que lá no fundo se divirta me torturando. Digo isso porque, de vez em quando, vejo um brilho maldoso nos seus olhos miúdos. Ela torce a barra do avental de joaninha e me sorri.
    - Estou tão orgulhosa de você hoje, querida. - Bajula-me a sorridente Isaura.

    E eu, cá do alto do meu cansaço, penso:
    "Isaura, sua filha da puta, pegue esse seu avental de joaninha, seu material de limpeza, os panos, o rodo, a vassoura e toda a parafernália e vá pro inferno! Ah, só pra te avisar, estou indo fazer as unhas."

    Beijinhos
    Fê Coelho.
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