• O Olhar do anoitecer...



    Eles estavam discutindo novamente. Eu podia ouvi-los claramente de dentro do meu quarto. Será que não se importavam com o que nós, vizinhos, poderíamos pensar?
    Ou pior, será que não pensavam no que poderiam estar causando a ela?
    Eu não sabia como era passar por aquilo, meus pais nunca sequer brigaram, pelo menos não na minha frente, mas provavelmente achavam isto algo bem comum em outras famílias, porque nunca ouvi um comentário sequer sobre todas essas audíveis discussões que vinham da casa ao lado.

    Ela não parecia uma garota sensível, parecia ser uma garota forte, daquelas que não terminam uma discussão aos prantos, parecia das que terminam uma discussão dizendo que você iria se arrepender por ter dito algo, de que ela provavelmente não gostou.
    Durante três dias eu considerei que essas brigas continuas entre seus pais pareciam estar, de pouco a pouco, a destruindo por dentro.
    Será que, até o fatídico momento, ela imaginava que seu vizinho da casa ao lado a observava dessa maneira?
    Por três dias, eu duvidava muito.

    Antes eu me mantinha entretido com alguma atividade on-line, algum jogo ou coisa parecida. O que nos últimos dias estava me deixando com uma incrível sensação de tempo perdido. Um rapaz da minha idade, cursando o ultimo ano do colegial, deveria estar pensando em notas, em faculdade, em procurar um bom emprego e juntar dinheiro para custear essa faculdade. E eu jogava X-Box, navegava na internet, assistia televisão, enquanto pensava em uma maneira de ter uma vida que me poupasse de tudo aquilo que eu temia: responsabilidades estúpidas, cotidiano chato e horários pré-estipulados.
    Até a coisa começar a ficar cumulativa e, a cada dia que passava, eu mais e mais começava a sentir uma terrível angústia, como se estivesse seguindo por um caminho do qual eu não teria como escapar. Eu nunca ganharia na loteria, nunca seria um astro do rock - eu não sabia fazer sequer um Dó em qualquer instrumento já inventado - na verdade não tinha nenhum talento artístico, assim como também não era brilhante nos esportes. E nos estudos, quando eu obtinha um B+ em uma prova, eu já me sentia um felizardo. Em resumo, não achava que havia esperança alguma que não fosse a de uma vidinha ordinária qualquer, com alguma sorte trabalharia com meu pai na loja de artigos esportivos.

    Meu pai era “o cara”. Capitão do time de futebol americano em sua época de colégio e também na faculdade, onde, dizia ele com orgulho até hoje, namorou a garota mais bonita da turma, a mesma com a qual se casou após se formar, e resolver desistir de ser jogador profissional para construir uma vida feliz ao lado dela. Planos pequenos, êxito completo. Agora morava em uma vizinhança de classe média alta no leste de Michigan, era casado com a mesma mulher a dezoito anos, dono de uma pequena loja de artigos esportivos que lhe roubava todos os dias e até alguns finais de semana, enquanto sua mulher trabalhava como corretora de imóveis para complementar o orçamento da casa, e tem um filho que não tem a menor idéia do que fazer da vida - a não ser observar a vizinha, também adolescente, pela janela.
    Eu não quis, nos três breves dias em que a admiro, pensar em mim como um vizinho bisbilhoteiro comum. Aquilo era algo maior. Algo incompreensível e, eu acho que não sabia o quanto.

    Certo dia, afundado em uma das minhas reflexões enquanto aguardava outra partida on-line começar, acabei largando o controle do X-Box em revolta e fui em fúria para a janela apanhar algum ar. Minha mãe já havia sugerido me consultar com algum psiquiatra ou algo do gênero, mas eu neguei veementemente que precisasse desse tipo de ajuda. Talvez antes ela estivesse certa, agora eu acho que não tinha mais tempo para pensar nos meus problemas. Quando cheguei à janela, lá estava ela.

    A janela do meu quarto ficava na lateral de nossa casa, no segundo andar, um pouco à direita da dela, mas quase de frente, a apenas uns nove ou dez metros de distância. Estava com os braços cruzados para frente e apoiados na base da janela, olhava para o espaço de grama entre minha casa e a dela com uma expressão estranha. Eu não sabia que alguém podia expressar tamanha tristeza sem parecer chorar, principalmente uma garota, mas, bem, era o que ela estava fazendo. Os seus cabelos lisos e negros estavam balançando harmoniosamente junto ao vento e, quando eu a vi, meu ímpeto, minha raiva, meu descontentamento criado por todos aqueles motivos, que agora eu sabia serem extremamente supérfluos, desapareceram por completo.

    Depois de poucos segundos ela notou minha presença e me encarou. Seus olhos eram negros e profundos, a pele bem branca e os detalhes delicados combinavam com o fato de ser alta e esbelta. Eu fiquei maravilhado com quão bonita ela era e, ao mesmo tempo, completamente chocado por nunca ter reparado nesta garota antes. Mas o meu primeiro momento a observando foi extremamente curto, porque segundos depois uma incrível discussão começou dentro de sua casa. Ela reagiu como se houvesse sido golpeada pelas costas, enquanto as duas vozes, masculina e feminina, continuavam a se digladiar sobre algum assunto que parecia ser sério, mas do qual eu não entendia uma vírgula sequer. Ela então se virou me lançando um segundo olhar, diferente do primeiro, com uma expressão culpada ou pesarosa, eu não sabia dizer, e então fechou a janela.
    Eu seguiria seu exemplo, se a minha curiosidade sobre o que poderia acontecer não tivesse falado tão alto. Ao invés de fechar a janela eu apenas desci a persiana e saí da frente da janela, voltando a sentar na minha poltrona de jogar e fiquei a ouvir toda aquela falação, me perguntando como estaria a garota agora. O videogame ficava insistentemente piscando a palavra “JOIN”, mas eu não tinha vontade nenhuma de participar.

    No outro dia, depois de voltar do colégio, e de fazer alguns serviços da loja para o meu pai, eu voltei para o meu mundo particular, dentro do meu quarto. Fiz minhas tarefas, terminei todos os deveres e liguei o videogame. Iniciei meu jogo de tiro favorito e o coloquei para acessar a rede. Após uma hora de jogo já estava escuro, mais ou menos no horário em que a havia visto ontem, a garota cuja qual eu ainda nem sabia o nome. Não tive coragem sequer de comentar com os meus pais. Nunca conversava sobre coisas corriqueiras com eles, muito menos se isso incluísse algo que pudesse me fazer parecer um desocupado ou, neste caso, um bisbilhoteiro. Eu gostava de, inutilmente, tentar manter minha pose de filho respeitável. Minha mãe chamava isso de “ser anti-social”.
    Foi nesse momento que me assolou uma enorme vontade de olhar pela janela. Isso era estupidez por vários motivos: Eu não era um bisbilhoteiro, ela não tinha motivos para estar ali novamente, eu não queria fazer papel de idiota. Ainda assim eu me levantei e fui para a janela.

    A persiana ainda estava baixa, com pouquíssima luz passando por suas frestas. Eu apaguei a luz do quarto para que minha silhueta não me denunciasse e fui bem devagar para a janela, levantando vagarosamente uma das tiras da persiana enquanto olhava para a janela à minha esquerda. Lá estava ela, parada casualmente à janela, usando uma blusa leve e branca, provavelmente aproveitando o calor que ainda restava do verão que acabara de passar. Ainda que continuasse mantendo aquela expressão, séria e quase sofrida, era tremendamente bonita. Desta vez ela estava olhando para o céu, para a parte ainda mais à esquerda de mim, de onde vinha uma enorme luminescência, a lua.
    Tomando todo cuidado para que ela não me visse fiquei um bom tempo a observando, e ela se manteve bom tempo apreciando a paisagem dos fundos de nossos quintais, nossas janelas davam para as laterais das casas, mas ainda assim era possível ver parte de nossos próprios quintais, que davam na pequena faixa de floresta que ficava aos fundos de todas as residências da nossa rua. Eu podia ver perfeitamente o jardim dela daqui, me lembrei de ter estranhado hoje pela manhã o quão era mal cuidado. Era quase estrondoso o contraste entre nossos jardins. O nosso era permanentemente cuidado pelo meu pai, era sua diversão dos finais de semana, quando tinha tempo livre, mas o dela tinha mato crescendo para todos os lados e, pensando bem, em nunca nem havia visto o pai dela, nunca havia visto nenhum dos pais. Não fazia a menor idéia de quem eram. Até que a discussão começou novamente. Nessas horas eu agradecia por meus pais chegarem tarde em casa, não teriam que agüentar isso.

    Ela novamente se encolheu e fechou a janela. E eu acabara de criar ódio pelos pais dela. Ao menos consegui me distrair da confusão desta vez. Não queria me atentar ao que eles estavam falando, queria apenas aplacar a minha vontade de estrangular ambos por terem-na tirado da janela de novo. Por terem a feito manter aquele olhar tão triste. Apertei os fones de ouvido, liguei o iPod a todo volume e me deitei na cama, jogando o travesseiro por cima da cabeça. Como a vida de algumas pessoas podia ser difícil. Eu estava começando a me perguntar o real motivo de ter me questionado e desgostado, durante tanto tempo, da idéia de ter a vida que tenho. Meus pais eram deuses perto daqueles que moravam na casa ao lado.

    No outro dia meu tempo no colégio se dividiu entre momentos rápidos e lentos. Sempre que eu me concentrava no que fazia e parava de pensar em futuro e no que deveria fazer daqui para frente, o tempo voava. Sempre que me lembrava dela, e de quanto tempo demoraria a chegar até a janela de novo, o tempo parecia esquecer de passar.
    A noite chegou como sempre e dessa vez eu mal consegui me concentrar no jogo, a única coisa que eu queria ver, através da fresta de minha persiana, era que aquela janela finalmente se abrisse e que ela aparecesse. Poucos minutos depois, ela apareceu.
    Abriu a janela de modo lento e cuidadoso, como se ela fosse quebrável, olhou para o chão próximo à cerca viva que dividia minha casa da dela, depois olhou para a lua, como eu esperava que ela fizesse. Estava usando uma blusa branca e leve como a do dia anterior, mas esta tinha mangas cumpridas. Ela se inclinou sobre a janela, se apoiou sobre os braços e ficou lá, olhando para cima distraída, enquanto eu continuava a observá-la do escuro e me perguntava sobre o que ela poderia estar pensando. Era um hábito bem estranho este, de sempre parar na janela a certa hora do anoitecer, mas sinceramente, eu adorava que ela o fizesse, o suficiente para não me preocupar com os motivos. E foi quando eu estava em meio a estes pensamentos que ela desviou o olhar da lua e fitou minha janela.

    Eu não fui esperto o suficiente para largar a pequena parte da persiana, que eu mantinha erguida, antes que ela olhasse. Se eu soltasse aquilo agora a persiana se moveria, destruindo a pequena chance de ela, talvez, não ter me visto. Então eu me mantive lá, imóvel como uma estátua. Ela não desviava os olhos. Continuava a observar minha janela, agora demonstrando um olhar centrado e curioso, ao invés do olhar distante e triste. Parecia me olhar nos olhos, e eu não conseguia me desviar dos dela. Com exceção do movimento que seu tórax fazia, demonstrando sua respiração tranqüila, e os fios de seus cabelos negros que voavam com os ventos, nada mais se movia. Eu sabia já estar suando graças ao nervoso que aquela situação estava me trazendo, acho que nem me lembrava de respirar. O que será que ela estava pensando agora? Provavelmente estava querendo ter certeza de que aquilo entre as frestas na persiana da janela de seu vizinho do lado eram, de fato, olhos!
    Até uma alta discussão se iniciar novamente dentro da casa e ela perder o foco em mim. Como da última vez ela recebeu mal a surpresa, olhando para dentro de casa, mas logo depois fitou novamente a minha janela. Seu olhar parecia assustado dessa vez, principalmente quando ela se inclinou pouco mais para frente, demonstrando claramente saber da minha existência ali, então começou a parecer sussurrar algo. Ela estava tentando falar comigo! Eu imediatamente dei uma passada para o lado e comecei a abrir a persiana, porém, quando olhei novamente pela janela, um enorme braço de alguém vestido de preto a puxou para dentro da casa, enquanto o outro fechou a janela fazendo um estrondo.

    Minha ultima visão dela foi um olhar que me sugeriu pânico.
    O barulho fez minha cabeça zunir, e eu fiquei, durante instantes, completamente perplexo diante daquele acontecimento estranho. Não sabia mais o que pensar, eu só sentia culpa por não ter conseguido ouvi-la e raiva daquele maldito que a havia puxado a força para dentro de casa. O que seria aquilo, um pai abusando de seus direitos? Um seqüestro? Ela tinha um olhar bem triste... Talvez morasse com parentes que a maltratavam. Ela podia muito bem estar em cativeiro! Eu não era do tipo que saia muito de casa, principalmente nos últimos dois anos, mas mesmo assim, nunca ter visto alguém como ela na rua ou até mesmo no colégio, enquanto esta mora bem do meu lado? Improvável.

    Eu tinha que fazer algo. Tinha que avisar a alguém. Já estava com o telefone sem-fio em mãos, só não sabia para quem ligar primeiro, para meus pais ou para o 911.
    Até ouvir o som da caminhonete de minha mãe parar em frente à garagem.
    Eu desci rápido e encontrei minha mãe entrando com uma enorme sacola de compras pela porta da frente.
    “Mãe!” Eu gritei enquanto terminava de pular os últimos degraus da escada de madeira envernizada.
    “Que bom que você desceu querido! Eu preciso mesmo de ajuda com essas sacolas...”.
    “Mãe! Tem algo de horrível acontecendo com a filha dos nossos vizinhos!”
    “Que filha? Por Deus Mark, você conhece os Thompson...”
    “Não mãe! Não estou falando dos Thompson, estou falando dos novos vizinhos dessa casa aqui do lado!”
    Ela parou e me olhou com uma enorme expressão de surpresa.
    “Querido, eu mesma estou tomando conta da venda dessa casa, não há ninguém morando ali...”



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    Este artigo foi publicado originalmente deste tópico: O Olhar do anoitecer (Critiquem!) iniciado por Dark Creator Ver post original
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