• Por que reler O Pequeno Príncipe quando somos adultos?



    Na contagem regressiva para a estreia da adaptação cinematográfica de O Pequeno Príncipe, que será no dia 8 de agosto no Brasil, vale fazer a releitura do livro homônimo de Antoine de Saint-Exupéry, que desde 1943 encanta muitas crianças e adultos. Contudo, esse motivo é mínimo em relação às outras razões que levam adultos a lerem este livro feito para crianças.

    Para uma criança, é um livro fantástico, engraçado e sensível. Para um adulto, é um livro cheio de metáforas, algumas generalizadas na forma de pensar, significados óbvios para todas as pessoas, por vezes metáforas individuais que o adulto relaciona com o que está vivendo em sua vida. Refletindo dessa forma, são incontáveis os significados deste pequeno livro, não caberia em um papel, tampouco em um texto, se juntassem alguns poucos leitores seria uma conversa sem fim, cheia de descobertas. Ousando uma reflexão sobre isso, se cada adulto acabasse por ler esta obra pelo menos uma vez por ano acabaria vendo relações e atitudes de suas vidas nas páginas de um livro classificados para crianças, mas que na verdade, é sim um livro para crianças que já cresceram.

    Logicamente, ao falar sobre O Pequeno Príncipe, seria um crime passar batido por certos detalhes, como os seis planetas que o principezinho passa antes de chegar à Terra:

    O 1º é um planeta onde vive um rei, que fica feliz com a chegada do menino, pois assim o homem finalmente teria um súdito que teria que obedecê-lo, ele era Rei, mas não tinha a quem mandar, dizia que as estrelas o obedeciam, afinal, que graça tem ter em mãos o poder de mandar e não poder condenar ou julgar alguém?

    O 2º planeta, por ora, se assemelha muito com o primeiro, o homem de lá quer aplausos, afinal, do que adianta a vaidade se não há admiradores? Pode-se imaginar a felicidade do homem ao ver o príncipe, um ser que pode dizer que ele é o homem mais belo, bem vestido e rico do planeta – apesar de ser o único morador de lá – finalmente sua vaidade encontrou uma razão, alguém para se mostrar.

    No 3º planeta, há um dilema, um bêbado que afirma beber para se esquecer da vergonha que sente por beber. O velho dilema dos adultos que abusam de algo, não se pode parar, pois se parar vai ter que encarar a vergonha que tem de ser o que é que se torna perceptível quando se está sóbrio – e acreditem que sóbrio não se refere apenas a estar limpo de alguma bebida ou droga, também é uma metáfora pra vida, para o trabalho e para as relações mantidas pelas pessoas.

    O 4º planeta é bem típico do mundo dos adultos, um homem que conta estrelas e se ele as vê e conta quer dizer que elas pertencem a ele e sua razão era estar lá para sempre conta-las e “enriquecer”, algo que pode ser lembrado mais no final da história com outra metáfora que será apresentada mais para frente.

    O 5º planeta era o que o príncipe achou uma maior utilidade no trabalho do homem que morava lá: acender e apagar o lampião sempre que a noite chega e vai embora, porém como o planeta era muito pequeno, os dias duravam um minuto e o pobre homem tinha que fazer isso o tempo todo, sem descanso. Realmente era um trabalho triste, sem que o homem pudesse descansar, mas pelo menos era o único indivíduo que não fazia aquilo pensando em si próprio. Quando o mundo muda e o tempo valioso começa a durar menos e temos mais que a nós mesmos para cuidar, é a hora de fazer sacrifícios e escolher entre o fácil e o certo.

    No 6º e último planeta antes de o príncipe chegar a Terra, ele encontra um geógrafo, que sabe pouco das coisas, pois está lá somente para registrar e não para explorar o que há no mundo. Ele afirma gostar da geografia pois ela raramente muda e ele não gosta de nada efêmero. Ai que o jovem descobre o que é efêmero, que sua rosa é efêmera e um dia pode desaparecer do mundo. Essa sim, com certeza é a pior descoberta que uma criança pode fazer.

    Sem pensar nas mais delongas que os planetas podem trazer para o pensamento e filosofia dos adultos, o príncipe chega à Terra, vê que existem milhões de rosas iguais a sua. A tristeza é inevitável, até que a Raposa – que pode ser vista como uma metáfora para a análise e a descoberta da psique pela explicação do que contem na alma de cada um – mostra que o que ele cativa se torna especial, portanto única. É o que faz o ser humano, há milhões iguais, mas os que nos cativam viram especiais e para uma criança cativar é fácil, elas são puras e livres de amarguras e preconceitos carregados de outras relações, essa era a razão das coisas para o príncipe, você só adquire algo quando cativa, diferente da filosofia do homem do 4º planeta que achava que possuía estrelas somente pelo simples fato de contá-las primeiro.

    Portanto, O Pequeno Príncipe é uma obra para ser lida e relida várias vezes. É escrita para adultos, afinal, as crianças já sabem de tudo o que está no livro, os adultos também sabiam, apenas esqueceram. As metáforas e os significados dos planetas, dos diálogos e do contexto são simplesmente infinitos, como o entendimento de que quando se julga e se abstém de cuidar e de investir na existência de algo valioso faz com que os humanos adultos guardem amarguras e se tornem solitários. Enfim, por tudo já visto, sempre releia a história, crie novas perspectivas, reflita sobre o significado dela, pois esta obra de Antoine de Saint-Exupéry é o molde de toda a sensibilidade de que um adulto precisa, demonstrado por uma criança.



    Por Tatiana Caruso Benne, publicado no literatortura
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